
Ela adormecera. Talvez porque a luz fraca do antigo abajur tornou aquele instante aconchegante, talvez porque ela não tinha muitos motivos para se manter no mundo dos despertos. Quando seu sonho tomou forma ela percebeu que estava longe de casa. Era um daqueles sonhos que parecem reais, que parecem talvez mais reais do que o próprio mundo real. Estava numa praia. De um lado o mar, azul acinzentado, gélido, trazendo uma brisa típica. Do outro uma floresta logo após a restinga. Ali um garoto chamou sua atenção. Ele estava sentado sobre um rochedo alto que encarava as ondas sem pudor. Ele estava encordoando uma guitarra semi-acústica. O branco da guitarra parecia sair do céu nublado ou das vestes da garota, vestes que agora estavam cheias de areia. O dourado dos trastes e captadores parecia surgir dos cabelos loiros dele, agora esvoaçantes pela brisa. Ela seguiu com seus pés descalços até a pedra, se sentou ao lado do rapaz e se pôs a admirar o mar. Timidamente ela disse oi. Ele num riso sem jeito respondeu se virando e a encarando.
Ela não pode deixar de notar seus olhos azuis que em contraste ao mar quase cinza, pareciam brilhar. Ela nada mais disse, porque aquilo já bastava. Desejou ter seu violino para tocar com ele, mas se contentou em apenas ouvir. E ouviu, e ouviu, e quis ficar ali ouvindo o tempo que fosse necessário. Ele não cantava, ela não dizia uma palavra. Mas o cansaço ou a falta de vontade de continuar fez com que ele parasse e deixasse o instrumento de lado. Olhou para ela e sorriu, deitou-se na pedra olhando o céu.
As nuvens vieram e se foram. O tempo começou a desacelerar. E no instante que ela reclinou-se sobre as pedras parecia que estavam fadados a ficar ali por toda a eternidade. Isso a deixou feliz. O céu escureceu sem mostrar o sol, mas a noite as nuvens foram pra casa descansar e revelaram o céu azul-escuro, as estrelas tímidas que piscavam pra se mostrar e a lua.
Lua cheia. Devido à fraca neblina dava pra observar um círculo de luz em volta dela. A garota olhou para o lado e começou a fitar o rapaz. Ele talvez não percebeu. Ou talvez gostou do ardor de um olhar sobre ele. Mas não resistiu muito tempo. Se entregou aos olhos dela e com os seus dessa vez ela se sentia encurralada. “Olhos de criança” ela pensou. “Roubados da própria infância...”
Não ficaram se olhando tanto tempo assim. Pensaram erroneamente ter durado horas. Mas os dois fecharam os olhos quando se beijaram. Quando ela acordou naquele quarto de hóspedes ela tinha o violino nas mãos. Quando ele acordou no próprio quarto em algum lugar ele tinha um lenço nas mãos. Precisava procurá-la para devolver...
Ela levantou, andou um pouco e viu que ainda era noite ali. Tinha um ritmo na cabeça, uma melodia que ela tirou dos olhos do garoto. Tentou tocar, mas não adiantou. Lembrou-se que como eles fecharam os olhos e como ele acariciava seu rosto... Ela gostava do som de violinos, mas seu violino, pelo menos naquele instante, não seria melhor do que o silêncio.

Um comentário:
que narrativa poetica!Muito bom!Adorei a frase com a qual voce terminou o texto.Gosto de ler mais com a alma do que com os olhos.E esse é o seu tipo de texto, ao meu ver.Adorei =)
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