5 de julho de 2009

[Parte 1] O Quarto de Hóspedes


Muito antes da praia era outono. E aquela bela garota estava num estágio entre o delírio e a consciência plena. Ela tinha longos cabelos que encantavam muito rapazes, tinha olhos sedutores que conquistavam muitas opiniões, mas não ligava para isso. Estava simplesmente feliz naquele instante. Tinha ido mal em suas provas de escola, tinha brigado com seus pais, perdera o lenço que amava, mas estava feliz.
Aquele dia estava frio, foi o primeiro dia frio do ano todo. Ela estava deitada em sua cama olhando para a janela entreaberta onde os últimos raios solares entravam. A noite anunciava sua chegada timidamente. A garota gostava daquela cena que via, e por causa disso gostava de morar ligeiramente afastada do centro urbano. No seu jardim pequeno só havia espaço para uma árvore que estava sem folhas naquela estação. Ela improvisou um balanço com cordas no galho mais baixo da árvore desfolhada, onde adorava se balançar para sentir a brisa no rosto. Mais além a floresta densa cortada por uma estreita estrada. Junto à janela de seu quarto havia um banco, daquelas namoradeiras antigas, onde ela largava seu violino depois de tocar.
Além do silêncio, o som que ela mais admirava era o do violino. Não solitário, porque ele se torna muito tétrico solitário. Mas ela já tocara com seu irmão mais novo um dueto de violão e violino. Desastroso. Mas nunca se divertiu tanto. Aliás isso é o que a torna mais ligada a ele. Ela também já tocara com amigos ou em outras situações, mas esses são capítulos diferentes.
Quando o anoitecer se tornou iminente ela fechou os olhos para guardar aquela cena, mas logo depois se levantou e foi se trocar. Saiu do quarto. Pretendia buscar algo para comer quando viu a porta no fim do corredor que leva ao quarto de hóspedes: estava entreaberta. Ela estranhou já que nunca ninguém usava aquele quarto. Aproximou-se silenciosamente e pousou a mão na maçaneta como se fosse uma pena caindo sobre qualquer superfície. Abriu a porta com um rangido típico e adentrou. O quarto estava escuro exceto pela penumbra que entrava com a garota. Vista por alguém que poderia estar dentro do quarto ela tinha sua silhueta delineada pela luz vinda de fora, realçada pelo temor de algo estranho. Mas para sorte da garota, não havia ninguém ali.
Ela buscou a luz do abajur e viu o quarto num todo, iluminado, e percebeu que fazia muito tempo que não entrava ali. A casa toda tinha um ar de antiga com as paredes de pedra na base e no resto alvenaria e um majestoso telhado. As bases do teto tinham entalhos de madeira como adorno. Ao redor dos lustres ou cúpulas havia afrescos de autoria desconhecida. Mas aquele quarto em especial tinha algo que ela não sabia dizer o que é, mas amava mesmo assim. À meia luz do abajur ela se jogou na cama de casal com cobertura.
Ela se lembrou de quando era criança e sua mãe estava a arrumar o quarto para visitas que viriam. Como a garota amava aquela cama, sua mãe tinha trabalho dobrado na organização, mas sempre cedia vendo a diversão da filha e ao deitar junto dela contou que os sonhos mais especiais que ela já teve ocorreram ali – naquela cama. A casa estava na família há anos e o quarto era o único cômodo que se mantinha exatamente como foi sempre. Mas a garota deixou de pensar, o sono a capturou e roubou sua lucidez e a meia-luz se tornou distante...

3 comentários:

Monique disse...

Finalmente! *-*'

Carol Mendes disse...

Uauuu...
Amei...
Bjinhos.

Anônimo disse...

Declaro que não li tudo entrei para fazer uma coisa rápida, mas clicando aqui e ali: você, sua obra, gostei! Seus silêncios falaram alto em minha alma.
Beijos, sucesso.
Visite-me:
www.oespelhodeeva.blogspot.com

Uma luz.




Desculpe estar distante por tanto tempo. Afinal não sou mais o mesmo que era quando escrevi o primeiro texto, na verdade sou um alguém no mínimo mais consciente de que quero melhorar. E que venham as palavras pra eu despejar meus pensamentos.

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