Ando pela rua. Meus ouvidos nus. Sinto meu coração desacelerando. Silêncio. Pessoas passam por mim. Passam, vão, talvez tenham aonde ir, talvez tenham a quem encontrar. Pessoas que provavelmente eu nunca mais verei. Rostos que não tenho porque guardar. Você os guarda? Duvido que se lembre de cada um. Não me lembro nem de colegas, não vou ficar mesmo com alguns desses borrões. Borrões? É o que são. Não passam de pessoas que cruzam pela câmera sem flash. Talvez eles até ficassem mais nítidos, mas perderia tanto tempo se eu parasse para conhecer todos eles. Pena, porque ganharia tanto tempo se encontrasse neles tudo que aparentam ter.
Olhe aquele senhor andando de bengala. Seus cabelos brancos e postura desigual me lembram aqueles queridos idosos que sempre têm muitas histórias para contar. Olhe aquela garota que caminha seguindo as linhas no chão. O jeito com que se equilibra na imaginária “corda-bamba” pode revelar o quão feliz ela é por gostar das coisas simples.
Feliz como todos aparentam ser. E acho que é isso, todos buscam a felicidade nos outros. Aprendi muito mais vendo a garota sair da frente de obstáculos imaginários que desviavam o traçado que ela seguia. E naquele instante meu sorriso provava que – nem que só naquele instante – eu era o que ali estava mais feliz.

Um comentário:
Talvez precisem de um lugar onde sejam mais do que borrões. Talvez o estejam procurando.
"Passa e não vê, e não vê."
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